O cinema latino-americano muitas vezes apela com suas longas cenas de pornografia gratuita. Por outro lado, é constrangedor ver o esforço de muitos filmes norte-americanos pra fugir, esconder, reprimir o sexo e a nudez. Especialmente ridículas são aquelas cenas em que os personagens andam nus pela casa, mas seus membros sexuais, por incríveis malabarismos de câmera, estão sempre atrás de algum vaso. O filme “Corra que a polícia vem aí” tem uma cena brilhante que satiriza essa idiotice. De fato, em muitos filmes americanos, a nudez acaba sendo enfatizada justamente pela sua ausência. Como disse Borges, a melhor maneira de chamar atenção para uma palavra é não usá-la nunca.Enfim, nunca vi outro cinema (nem o europeu, algumas vezes tão apelativo quanto o latino) onde a nudez seja mostrada de forma tão lindamente natural quanto o cubano – sem apelação e sem pudores. Digo mais: é uma naturalidade tão perfeita e tão disseminada que só pode ser fruto de uma política explícita, aplicada consistentemente. Ninguém veste uma camiseta pra se levantar da cama e ir até a geladeira. Os amantes, depois do sexo, conversam nus, na cama, ou andando pela casa. Não há ênfase alguma em mostrar seus órgãos sexuais, mas também não há nenhuma tentativa de escondê-los. A nudez é tão natural que chega a se tornar assexuada.Os personagens se levantam da cama nus e andam pelo quarto como uma pessoa normal andaria nua pelo seu quarto: não há nem o close na bunda do cinema apelativo latino ou o vaso na frente do pênis do pudico cinema americano.
A vida sexual das cinqüentonas
Para um carioca, da terra do culto ao corpo, onde os feios são quase párias, espanta ver a quantidade de mulheres cinqüentonas sexualmente ativas e atraentes do cinema cubano. Convenhamos: com raras e honrosas exceções, no Brasil, os atores ainda podem interpretar galãs até os oitenta (Tarcísio Meira já está beirando os cem), mas as mulheres muito cedo se vêem restritas aos papéis de vovó. As poucas exceções à regra são as atrizes absolutamente belíssimas. Fica implícito que mulheres somente podem continuar seres humanos sexuais depois dos cinqüenta se forem verdadeira divas. Às feias, resta interpretar a Dona Benta.Algumas das figurinhas mais fáceis do cinema cubano, Mirtha Ibarra, Susana Perez e Beatriz Valdés, são atrizes que já dobraram o Cabo da Boa Esperança faz tempo, não se enquadram nos padrões estéticos vigentes e não são divas nem símbolos de sexuais, mas interpretam sempre mulheres que amam e são amadas, que fazem sexo com a naturalidade das pessoas comuns, sem aquela presunção de que a vida sexual no cinema termina aos cinqüenta.
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